Viciados em tecnologia e felizes… só que não.

Uma entrevista da rede BBC com a jornalista espanhola Marta Peirano chamou a atenção para alguns assuntos aparentemente triviais, mas com graves consequências para nossas vidas.

Segundo ela, vivemos em um mundo capitalista no qual a briga pela atenção começa a exigir um preço muito alto: nosso tempo, ou, com mais propriedade, a nossa vida.

Peirano afirma em seu livro El enemigo conoce el sistema (O inimigo conhece o sistema, numa tradução liberal):

o preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que você oferece em troca.

Marta Peirano

Essa é a moeda utilizada pelo capitalismo para gerar dinheiro. Na nova economia, essa “vida” que damos em troca do nosso conforto são os dados pessoais, que até pouco tempo tinham pouca consequência e nenhuma proteção. A autora lembra ainda que

a conquista do direito de liberdade (de consciência, crença, locomoção, expressão etc)  custou sangue de muitos, entretanto, com a advento das tecnologias há um abandono aos direitos que foram duramente conquistados.

Marta Peirano

Tecnologias da Comunicação – milagre ou maldição?

É fato que as tecnologias de comunicação e informação viabilizam uma vida com muito mais sofisticação e conforto, com o conhecimento acessível de uma maneira nunca vista na história de qualquer país. A tecnologia contribui diariamente para combater doenças, evitar desastres, avançar a ciência e muito mais. Às vezes, essas contribuições parecem quase milagres.

Mas é verdade que o progresso sempre tem seu custo. A mudança, por mais que seja benéfica, carrega transformações que penalizam alguns para a melhoria da vida de muitos – de certa maneira, é uma troca inevitável; o que pode ser trabalhado é a escala e, até certo ponto, a velocidade das mudanças.

O caso das tecnologias da informação – e o tal do Big Data – trouxe algumas das mudanças mais brutais de todos os tempos, e talvez as menos percebidas em alguns aspectos. Hoje, vivemos em um mundo “datificado” – os dados regem a economia. As estatísticas são profetas de um futuro que parece escrito na pedra, embora virtual. E as pessoas se transformam em dados, alimentando essa máquina maluca, esse elixir pandegórico universal que promete acabar com os males do mundo – desde que você entregue a sua vida, ou, ao menos, as suas informações.

Somos vítimas ou heróis?

Peirano nos avisa que esse cotidiano tecnológico esconde uma verdade não-trivial:

(vivemos) um sequestro rotineiro de nossos cérebros, energia, horas de sono e até da possibilidade de amar (…) por tecnologias como o celular.

Marta Peirano

Isso porque todo o aparato tecnológico é desenhado para que o indivíduo passe o maior tempo possível utilizando “aquele” aplicativo, assistindo “aquele” canal de streaming, navegando “naquele” blog… A cada acesso, o aplicativo, o canal ou o blog conhecem um pouco mais os seus hábitos, conseguem descobrir do que você gosta ou não, quanto tempo você fica conectado, quando pára para almoçar, lanchar, ir ao banheiro… e isso permite criar novos conteúdos focados em aumentar ainda mais o tempo de conexão. É uma armadilha difícil de escapar, porque o aparato, o contexto e as promessas são muito sedutoras!

Claro, há pessoas que parecem ser imunes – não possuem perfis em redes sociais, usam o celular por necessidade, não querem nem saber de aplicativos de mensagens instantâneas e nunca maratonaram uma série no streaming. Essas pessoas existem, é claro… em algum lugar… talvez em uma ilha deserta… Ou quem sabe tenham perfil conservador e ainda acreditem que a terra é plana e que vacinas são conspirações para deixar as pessoas doentes.

É verdade, estou radicalizando nos exemplos. Sempre há um meio termo, os extremos são mais raros do que a média. Ainda assim, é muito mais difícil encontrar uma pessoa que seja “virgem” das atuais tecnologias da informação do que aquelas que já estão “viciadas” no celular, na tv por streaming, nos mensageiros instantâneos.

Há algumas explicações para isso – muitas, na verdade. Prefiro ficar usar a Navalha de Ockham e ficar com a mais simples: é mais fácil fazer o que todos fazem e ser aceito do que nadar contra a correnteza, ser um pária e, talvez, um herói.

Leia a entrevista de Marta Peirano no site da BBC:  https://www.bbc.com/portuguese/geral-51409523

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