O trabalho do futuro e o futuro do trabalho

Em uma sociedade digital, com novas tecnologias surgindo a cada momento e a capacidade de aprendê-las a tempo constantemente desafiada, as ideias de trabalho e de emprego precisam ser repensadas a tempo de promover uma reflexão sobre o que se espera para o futuro e como as pessoas podem se relacionar com esses conceitos.

As opiniões expressas nesse ensaio são exclusivamente do autor e não refletem, necessariamente, as opiniões e/ou posicionamentos do Instituto Modal.

Antes de começar a leitura, considere que boa parte do que você vai ler é um exercício especulativo. Não fiz nenhum estudo, não consultei artigos científicos e nem conversei com acadêmicos, professores, profissionais ou astrólogos. Portanto, se você gostar dessa publicação, ótimo! Mas não tome nenhuma decisão impactante acreditando que se trata de algum resultado fruto de análise preditiva ou nada do gênero! Esteja avisado!

O pós-guerra viu surgir a micro-eletrônica e, dela, a revolução digital. Da conectividade crescente nasceram as redes sociais, bisnetas dos BBSs (Bulletin Board Systems) que nasceram em 1972; netas dos IRCs (Internet Relay Chat), de 1988; e filhas do Orkut, de 2004. A introdução da Internet no cotidiano das pessoas, no início dos anos 1990, disponibilizou cada vez mais informações para cada vez mais pessoas e, com sua evolução até os dias atuais, começou a demandar o acesso universal à rede pelo simples fato de que a maioria dos serviços depende de algum nível de inserção pessoal na Internet.

Os impactos decorrentes da introdução de novas tecnologia no século XX e XXI trouxeram mudanças sociais marcantes. Conceitos basilares como família e grupo social precisaram se ajustar à nova realidade tecnológica e ao mundo virtual. O termo comunidade, agora, abrange um novo conjunto de predicados e adjetivos para representar o uso coletivo de espaços virtuais, como grupos do WhatsApp, Facebook, Instagram, Clubhouse, Tik Tok e inúmeros outros. A família, até certo ponto, passa incluir essas comunidades extendidas, enquanto o relacionamento pessoal passa a ser, simultaneamente, mais abrangente em alcance e limitado na formação de relacionamentos pessoais “ao vivo”.

A tecnologia também impacta outras áreas. Cada vez mais, pessoas estão sendo pressionadas a aprender coisas novas – o que não é necessariamente ruim – e a desenvolver novas competências. O “senão” é que esses novos conhecimentos e essas habilidades possuem datas de validade progressivamente menores. O que se aprende na Faculdade em alguns cursos, por exemplo, já é obsoleto quando o cidadão se forma – isso é especialmente verdadeiro em cursos com fundamentação tecnológica. Mais do que isso – ferramentas como Inteligência artificial e robótica começam a executar uma série de atividades que eram de domínio exclusivo das pessoas.

Essas novas “Eras” tecnológica e social, que estão mostrando sinais cada vez mais evidentes e abrangentes, trazem a reboque consequências profundas para a vivência das pessoas em todos os níveis. Nessa publicação, abordarei alguns pensamentos sobre esse novo mundo aplicado aos conceitos de trabalho e emprego.

Expectativa de vida

Os avanços da medicina e o acesso a informações científicas qualificadas trazem o aumento da expectativa de vida em praticamente todas as regiões do mundo. Segundo o IBGE, no Brasil, em 2017, “a expectativa de vida ao nascer era de 76 anos, um aumento de 30,5 anos em relação a 1940 e de 2,1 anos em relação ao ano de 2010. Em 2020 a expectativa de vida já estava em 77 anos, porém a pandemia do novo coronavírus tirou dois anos na esperança de vida dos brasileiros, baixando de 77 para 75 anos” (https://www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/sociais/populacao/9126-tabuas-completas-de-mortalidade.html?=&t=resultados). Ou seja, em pouco mais de 30 anos, o nosso tempo no planeta aumentou em mais de 50%. Descontada a pandemia e considerando os avanços nas pesquisas sobre longevidade e a possibilidade de integração com biotecnologias, a tendência é vivermos cada vez mais e com melhor qualidade de vida. Pessoalmente, acredito que meus filhos, hoje com 17 e 14 anos, possam viver mais de cem anos – talvez até por tempo indeterminado.

Obviamente, viver mais significa gastar mais – com alimentação, roupas, higiene, cuidados com saúde etc. Dessa forma, é preciso conseguir algum tipo de complementação de renda para a maioria dos idosos, que começam a retornar ao mercado de trabalho em diferentes funções.

Empregabilidade e Educação

Em um mundo tecnológico, é de se esperar que conhecimentos atualizados permitam maior acesso ao emprego. No entanto, observo fenômenos contraditórios: por um lado, há vagas de emprego disponíveis – em alguns casos, com muitas oportunidades – e pouco profissionais; mas também há milhares de recém-graduados que não conseguem se empregar. Essas contradições são geradas pela necessidade crescente de profissionais cada vez mais qualificados e experientes – algo que um recém-formado dificilmente alcança logo ao sair da faculdade. Da mesma forma, a necessidade de se manter atualizado em relação ao avanço tecnológico reformula profissões, criando e destruindo carreiras, em um saldo ainda difícil de contabilizar.

Ainda assim, os últimos anos mostraram uma quantidade enorme de novos negócios emergindo a partir da aplicação de diferentes tecnologias, em vários setores. Fintechs, Edutechs, Legaltechs, Govtechs… enfim, “qualquer-área-tech” apresenta o potencial de gerar um novo negócio disruptivo e mudar o cenário de um determinado segmento. Essas novas oportunidades, no entanto, requerem um tipo de formação que não é oferecido na educação básica e nem nos cursos superiores – a competência de empreender, a disposição em assumir riscos, a capacidade de cultivar relacionamentos e a habilidade de identificar (e resolver) problemas. Organizações tradicionais também buscam essas novas competências que não são ensinadas nos cursos.

Essa conjunção está transformando a ideia de emprego como um objetivo de vida. As novas gerações, mais independentes do que nunca, têm demonstrado pouco interesse em relações de trabalho convencionais, com horários fixos, carteira de trabalho assinada e hierarquia. A pandemia mostrou ser possível – e às vezes até mais produtivo – trabalhar em casa e atingir os mesmos resultados de produtividade a um custo bem menor em diversos tipos de empresas. Da mesma forma, a flexibilidade de horários e o foco na entrega de resultados (ao invés de horas trabalhadas) traz a possibilidade de abir novas frentes de trabalho, facilitando a geração de renda ao custo da fragilização das relações convencionais de emprego.

Tecnologia

Ferramentas como inteligência artificial (IA), em conjunto com a massiva quantidade de dados disponível, estão transformando a relação de poder nas organizações. Em empresas gigantes da tecnologia já há casos em que executivos de primeira escalão se transformaram em executores das decisões de sistemas de IA, que analisam um mundo de dados com velocidade e eficiência incomparáveis ao de qualquer gestor e determinam todas as atividades da empresa. O executivo faz o papel de validador das decisões e de figure-head da empresa – ele está lá muito mais para que as pessoas aceitem as decisões do que pela necessidade de tomá-las. Essa realidade ainda está longe da grande maioria das empresas, mas o caminho nesse sentido parece já estar desenhado, uma vez que a IA se faz presente em mais e mais aplicações, a custos baixos e com tendência de redução de preço no longo prazo.

Mais do que isso – já estamos chegando ao ponto em que algoritmos estão criando algoritmos. Ou seja, a IA está resolvendo problemas de codificação e lógica que eram restritos a profissionais da área de desenvolvimento de software. A evolução dessas tecnologias levará à criação de softwares cada vez mais complexos e eficientes, tornando obsoletos os desenvolvedores humanos.

Da mesma forma, já se encontram disponíveis soluções que substituem – parcialmente, ao menos – contadores, advogados, avaliadores de seguros, corretores, vendedores, escritores e muitas outras profissões. À medida que essas soluções se desenvolverem, a tendência é que assumam ainda mais funções que antes se pensavam ser exclusivas das pessoas. Onde isso vai parar? A verdade é que talvez não pare nunca.

Ócio

Um dos grandes pensadores da atualidade, o sociólogo Domenico De Masi lançou, em 2000, um livro que ficou mundialmente famoso: “O ócio criativo“. Nessa obra, De Masi considera a interseção de três aspectos para conceituar “trabalho”: vendas, o comércio em si; faculdade, a possibilidade de obter dinheiro através do estudo constante; e raciocínio lógico, a forma de fazer a mecanização do raciocínio. Acontece que, na atual sociedade pós-industrial, esses três aspectos não encontram um equilíbrio, obrigando as pessoas a praticar o “ócio criativo”, ou seja, a valorizar outros aspectos que permitam o realinhamento de vendas, faculdade e raciocínio lógico, o que trará satisfação no trabalho.

De Masi também explorou outros conceitos referentes ao mundo pós-revolução industrial, como a globalização financeira, o desenvolvimento com baixa geração de emprego e renda, a feminilização no mundo profissional, a perda de utilidade das ideologias e crenças tradicionais e dificuldades em integrar os sujeitos sociais emergentes nas relações estabelecidas entre os atores sociais tradicionais. Para o autor, essa realidade gera um profunda insatisfação no indivíduo.

O que De Masi não abordou de maneira direta nessa obra é que atualmente já estamos na 4ª Revolução Industrial – o mundo digital. O conceito de trabalho baseado em vendas, faculdade e raciocínio lógico já está encontrando o seu limite, pois o próprio modelo de trabalho não atende, de forma completa, as necessidades da sociedade. Aliás, a situação é uma ameaça ao próprio modelo capitalista, uma vez que a queda na geração de emprego e a diminuição da renda gera uma redução do consumo. Com isso, as indústrias precisam reduzir custos para baixar os preços, e a solução para redução de custos é investir mais em novas tecnologias, que aumentam a produtividade através da automatização de tarefas, o que diminui a quantidade de empregados, que passam a não ter mais renda… e por aí vai.

Em termos práticos, a tendência é que mais pessoas fiquem desempregadas ou com rendimentos cada vez mais baixos, até que os níveis se tornem insustentáveis para garantir os padrões de vida atuais. Nesse ponto, teremos uma capacidade de produção quase ilimitada, com tecnologias que parecerão mágicas, e a grande maioria das pessoas com uma relação diferente com a ideia de trabalho – que dificilmente será igual à noção do que é trabalho nos dias de hoje e radicalmente diferente do conceito de emprego, que talvez seja abandonado.

Inteligência no futuro

Nesse mundo complexo, caótico, em rápida mudança e atualização, já chegamos ao ponto em que, para a maioria das pessoas, nossa tecnologia é sinônimo de mágica. Sabemos usar celulares, computadores, aparelhos de televisão, carros etc., mas poucas pessoas conseguem entender como esses aparelhos de fato funcionam e praticamente ninguém conseguiria construir qualquer dessas coisas sem o apoio de outras tecnologias. A situação se complica: a cada novidade, a pessoa comum entende menos. Estamos na era do “aperte um botão”, “clique aqui” – e, em alguns casos, não é necessário sequer apertar ou clicar qualquer coisa, é só falar com o assistente digital.

Pela primeira vez na história da humanidade, o QI (teste padrão para aferição do nível de inteligência de uma pessoa) dos filhos é menor que o dos pais. Se isso persistir, teremos uma civilização em regressão intelectual, o que significa que a humanidade será detentora de tecnologia avançada, mas ninguém entenderá como nada funciona. O pior: a possibilidade de criar novas tecnologias, de fazer descobertas, de entender o universo – tudo isso vai se reduzindo (leia mais sobre esse assunto em https://canaltech.com.br/comportamento/filhos-tem-qi-inferior-ao-dos-pais-por-culpa-da-era-digital-diz-neurocientista-187413/).

A curiosidade e a necessidade sempre foram os principais motores da inovação e da descoberta, bem como as bases para a construção da nossa sociedade industrial. O que acontece quando, como civilização, perdermos o interesse em descobrir coisas novas e tivermos todas as nossas necessidades atendidas por um computador super-inteligente?

Em relação ao trabalho, a questão que se coloca é quais serão as oportunidades disponíveis para as pessoas? Teremos como criar negócios, inventar novos aparelhos, descobrir coisas revolucionárias por nós mesmos? Ou ficaremos dependendo da decisão de uma super-inteligência em fazer essas coisas por nós?

Hoje, a necessidade de profissionais com alta especialização em áreas específicas traz as melhores oportunidades de trabalho, mas já verificamos que não existem profissionais suficientes para atender essas vagas. Se essa lacuna persistir, alguém (ou algum algoritmo) provavelmente irá descobrir alguma forma de automatizar essa necessidade – e, mais uma vez, as máquinas tomarão o lugar das pessoas.

O que poderá ser considerado trabalho no futuro?

Nos anos 1960, a IBM, em seu auge, lançou o slogan “people should think, machines should work” (“pessoas devem pensar, máquinas devem trabalhar”). O que se percebe no mundo de hoje, no entanto, é que existe uma situação em que o ser humano está abrindo mão do pensamento – não por uma decisão consciente, mas por um conjunto de circunstâncias – enquanto as máquinas estão cumprindo o seu papel de assumir cada vez mais postos de trabalho, mas não no sentido pretendido pela IBM e sim na forma de executar tarefas com mais qualidade, eficiência, velocidade e baixo custo do que uma pessoa. E a tendência é que essa realidade alcance cada vez mais setores.

Acredito que o trabalho como conhecemos hoje vai deixar de existir num futuro não muito distante. Talvez em 50 anos, talvez menos – não sou futurólogo para cravar uma data. Mas, diante dessa conjuntura apocalítica apresentada nesse texto, ainda tenho esperança.

Não penso que a humanidade regredirá intelectualmente, mas sim que a mudança da relação do ser humano com o trabalho promoverá outro nível de consciência, voltado ao auto-aperfeiçoamento, à busca do auto-conhecimento. Talvez entendamos “trabalho” como a construção de relações humanas, como arte ou como o desenvolvimento das potencialidades plenas de cada um. Os testes de QI medem alguns aspectos da nossa inteligência, mas estão longe de capturar elementos como inteligência emocional, relações interpessoais, cinestesia e outros tipos de inteligência, como colocados por Howard Gardner, Daniel Goleman e outros pesquisadores.

Nesse sentido, o “trabalho do futuro” talvez venha ser uma revisão do ócio criativo de De Masi. Quem sabe possamos chamá-lo “ócio trabalhista”?


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Sobre o(s) Autor(es)

Diretor Técnico em | [email protected] | Website | + publicações

Bruno Souza é Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2001), Especialista em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral (2010) e Bacharel em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Brasília (1993). Possui experiência em gestão de projetos de ciência, tecnologia e inovação (PD&I), para órgãos públicos e privados, de âmbito nacional e internacional; em gestão de instituições de ensino de grande e pequeno porte (vivências como Diretor Executivo, Diretor Acadêmico e Coordenador de Cursos de graduação e pós-graduação); como professor universitário para cursos de graduação e pós-graduação. Atualmente atua como Diretor Técnico do Instituto Modal de Ciência, Tecnologia e Inovação, do qual também é associado fundador.

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